segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Pesquisa que circula: comunicação científica, impacto e públicos ampliados. Ciência para quem?

Pesquisa que circula: comunicação científica, impacto e públicos ampliados. Ciência para quem?[1]

Dr. Claiton José Mello

Universidade de Aveiro, Portugal

Proponho uma reflexão sobre os públicos mais ampliados e que precisam da ciência, mas que muitas vezes, não têm acesso ao conhecimento científico, ou este é negado. Assim, pergunto: a ciência desenvolvida nas universidades, centros de pesquisa entre outros ambientes acadêmicos serve para quem?

Inicialmente, apresento no quadro 1, abaixo, como se configura a produção científica mundial, com a demonstração da trajetória da produção científica entre os anos de 2000 a 2018, dados que foram publicados na Revista Pesquisa FAPESP, edição 288, de fevereiro de 2020[2].

Quadro 1: Produção científica global 2000/2018

Publicações científicas por países

Aqui interessa observar a posição dos países em que há mais publicações científicas, estando a China em primeira posição desde 2016, substituindo a posição dos EUA. No destaque, pode-se observar a ascensão da produção brasileira, saindo de 16º colocacão, em 2005, para a 11ª posição em 2018.

Esse movimento ocorrido no Brasil pode ser justificado pelo impactado de políticas públicas na área de educação e pelo aumento de investimentos nas universidades públicas; o estabelecimento da Lei de Cotas no Ensino Superior, Lei nº 12.711/2012, como também pela maior disponibilidade do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), e demais políticas públicas, o que gerou aumento do número de estudantes também em universidades privadas. Outro fator de impacto nas produções científicas brasileiras foi a expansão da rede de institutos federais por todo o país, com cursos de graduação e pós-graduação.

No quadro 1, conforme metodologia desse ranking, é importante anotar que se trata de contagem fracionada, que representa a fração de participação dos autores do país entre todos os autores do artigo. Caso fosse a contagem inteira, seria considerado um artigo para cada país representado entre os autores, podendo o artigo ser contado diversas vezes, dessa forma o Brasil apareceria na 14ª posição. Outro destaque vai para a Índia, que sai da 12ª em 2000, para a 3ª posição em 2018, fenómeno também ligado ao crescimento económico, como veremos adiante.

Relação Economia e ciência

No quadro 2, pode-se observar dois gráficos, lado a lado. O primeiro apresenta a colocação dos 10 primeiros países por geração de Produto Interno Bruto, porém, convertido em Paridade do Poder de Compras (PIB/PPC), em 2024. Quer dizer, não se trata apenas do PIB nominal em dólares, mas sim em Paridade do Poder de Compra (PPC), que ajusta as diferenças nos níveis de preços entre países, permitindo que os números do PIB sejam comparados de forma significativa entre nações, diferentemente do Produto Interno Bruto (PIB) que é o valor monetário total de todos os bens e serviços produzidos e vendidos dentro de um país durante um ano, conforme dados do Fundo Monetário Internacional[3].

O segundo gráfico apresenta os 10 principais países por quantidade de artigos científicos publicados em periódicos, em 2025. De acordo com essa Plataforma[4], que agrega conteúdo abrangente sobre diversas áreas do conhecimento, são computados mais de 188 milhões de artigos publicados em diferentes revistas.


 

Quadro 2: Relação PIB / Produção científica

Ao comparar os dois gráficos, de modo geral, pode-se relacionar que o desenvolvimento econômico de um país está fortemente vinculado com a capacidade de sua produção científica, apesar de não figurar a Rússia e a França nesse ranking de 2025 e, ao mesmo tempo, aparecer a Itália e a Turquia. Dessa forma, pode-se dizer que o desenvolvimento das forças produtivas de um país possibilita o desenvolvimento tecnológico e o desenvolvimento humano e social, na medida em que os ganhos econômicos gerados pela sociedade sejam realmente redistribuídos. Porém, essa não é a regra geral, a considerar as desigualdades na distribuição de renda dentro dos países.

A riqueza não é distribuída para todos, nem mesmo a ciência é dedicada para todos

No quadro 3, abaixo, é possível observar as informações e números apresentados pela OXFAM Internacional[5], uma organização não governamental que atua em mais de 90 países, e produz diversos relatórios sobre a desigualdade, sendo o principal aquele apresentado anualmente nas conferências paralelas ao Fórum Económico de Davos, documento anual de leitura necessária.


 

Quadro 3: desigualdade global

Os números e dados falam por si só. São informações alarmantes sobre a concentração de renda nas mãos de um número insignificante de pessoas e, ao mesmo tempo, a geração de uma catástrofe econômica, social e ambiental que recai sobre a imensa maioria da população mundial. É possível perceber o crime da concentração de renda quando se observa o valor de 18 trilhões de dólares para 3.000 bilionários, enquanto a Índia, um país de mais de 1,4 bilhão de pessoas tem um PIB de 15 trilhões de dólares, conforme apresentado no quadro 2 anterior.

No Brasil, a desigualdade também é marcante, apesar de avanços em muitas políticas públicas. De acordo com a Oxfam Brasil[6], em média, o rendimento das pessoas brancas é mais de 70% superior à renda de pessoas negras. Os 4 dos 5 bilionários mais ricos aumentaram em 51% sua riqueza desde 2020; ao mesmo tempo, 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres.

As cinco pessoas mais ricas do Brasil, em 2025[7], conforme listadas abaixo, concentram-se nos setores da tecnologia e dos bancos, o que demostra o poder da financeirização da economia brasileira (Dowbor, 2017).

1.         Eduardo Luiz Saverin - Idade: 43 anos, naturalidade: São Paulo. Patrimônio líquido: R$ 227 bi. Origem patrimonial: Facebook;

2.         Vicky Sarfati Safra e família - Idade: 73 anos, Origem: Grécia - naturalizada brasileira. Patrimônio líquido: R$ 120,5 bi. Origem patrimonial: Banco Safra;

3.         Jorge Paulo Lemann - Idade: 85 anos, Naturalidade: Rio de Janeiro. Patrimônio líquido: R$ 88 bi. Origem patrimonial: AB InBev, 3G Capital;

4.         André Santos Esteves - Idade: 57 anos, Naturalidade: Rio de Janeiro. Patrimônio líquido: R$ 51 bi. Origem patrimonial: BTG Pactual;

5.         Fernando Roberto Moreira Salles - Idade: 79 anos, Naturalidade: Rio de Janeiro. Patrimônio líquido: R$ 40,2 bi. Origem patrimonial: Itaú Unibanco, CBMM.

A situação brasileira se agrava e se torna obscena pelo número expressivo de pessoas em trabalho precário e sem carteira assinada, com quase 40 milhões de trabalhadores, além de um exército de jovens Nem-Nem, entre os 15 e 29 anos, que nem estudam e nem trabalham, que somam mais de 8 milhões.

De acordo com dados populacionais e informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país soma uma população acima dos 213 milhões, contando com uma População em Idade de trabalhar/Ativa (PIA) de174,1 milhões. No entanto, apenas 108,6 milhões fazem parte do mercado de trabalho como População Economicamente Ativa (PEA), sendo: 102,3 milhões Pessoas Ocupadas, porém 63,6 milhões formais, com carteira assinada, e 38,7 milhões informais, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas, geralmente em trabalhos precários, além de 6,3 milhões de Pessoas Desocupadas, que ainda procuram emprego.

O restante da população brasileira está Fora da Força de Trabalho, os Inativos, que somam mais de 65 milhões, incluindo estudantes, aposentados entre outros. Dentro desse número ainda encontram-se os mais de 8 milhões de Nem-Nem, jovens desperdiçados e marginalizados pela sociedade, disponíveis para os chefes do crime organizado e das milícias do Estado paralelo.

Como incluir na economia formal, com dignidade e justiça social, mais de 50 milhões de brasileiros?

A questão que se coloca: como gerar riqueza e desenvolver a ciência e a tecnologia para incluir no processo produtivo e na proteção social, potencializar a criatividade e desenvolver o país junto com os quase 40 milhões de trabalhadores precários, mais de 6 milhões de desempregados e mais de 8 milhões de jovens abandonados? Qual é a estratégia e planejamento de país para se alcançar tal objetivo? Qual é a estratégia da política de ciência e tecnologia do país que será preciso desenvolver e implementar?

Com tamanha desigualdade, pode-se dizer que a produção da riqueza e da pesquisa científica são dirigidas para atender a interesses específicos e para manter a roda girando em direção à concentração de renda e de capital para muito poucos, o que aprofunda o fosso social. Essa situação leva o país a uma condição econômica insustentável, com degradação social e ambiental. Dessa forma, é necessário repensar a atuação das instituições nacionais e reafirmar o direito à cidadania para todos, como desafio de um outro Brasil possível.

Entendendo o modelo da ciência que predomina

O Triângulo de Sábato, quadro 4, é um modelo de política científica e tecnológica desenvolvido na década de 1960 pelo físico argentino Jorge Sábato e pelo cientista político Natalio Botana (Neder & Moraes, 2017, p.72). Ele descreve a articulação necessária entre três vértices para garantir o desenvolvimento económico e a inovação tecnológica, para aquela época. O esquema estabelece que, para que a ciência e a tecnologia gerarem desenvolvimento, é preciso que haja uma interação coordenada e dinâmica entre três entidades fundamentais, o que há mais de 60 anos fazia sentido.

Quadro 4: Triângula de Sábato

Em 1990, o conceito foi rebatizado como a Tríplice Hélice, por Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff. O esquema passa a se referir ao mesmo modelo repaginado, agora focado na inovação, numa perspectiva neoliberal. No entanto, esse esquema já não responde à realidade, porque os interesses empresariais e corporativos dominam todo o espectro, os Estados são mais fracos, muitas vezes não soberanos, e não planejam o desenvolvimento com objetivos e metas claros, ao tempo em que as universidades encontram-se bastante distantes das realidades sociais.

Um contraponto

Torna-se imprescindível um novo modelo de Ciência e Tecnologia para o desenvolvimento, com inclusão social e produtiva, com geração de trabalho e renda para amplas massas trabalhadores, com justiça climática e cuidado ambiental. Dessa forma, compartilho a ideia, junto com diversos investigadores e cientistas brasileiros e sul-americanos, de que é preciso outro vértice nesse esquema de Sábato – os Movimentos Sociais, conforme propõe Dagnino, a fim de promover o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia com e para a Sociedade, num movimento chamado Movimento CTS (Dagnino, 2014). Ver quadro 5.


 

Quadro 5: Quadrado de Dagnino: Ciência, Tecnologia e Sociedade - Movimento CTS

Aqui, entende-se os Movimentos Sociais como promotores do desenvolvimento local, com trabalho coletivo, solidariedade e cooperativismo, por meio da economia solidária e popular e de tecnologias sociais (Parreiras, 2007).

O chamado Movimento CTS pode ser entendido pelo processo de construção do conhecimento – ciência – e pela descoberta de soluções – tecnologia –, gerado pela academia em conjunto com e para as populações – sociedade – que têm sabedorias e conhecimentos tácitos e milenares, e que ficam à margem dos interesses hegemônicos do capital (Neder, 2024).

No Brasil, há duas grandes referências para o debate e construção do Movimento CTS: o professor Renato Dagnino, da Unicamp, e o professor Ricardo Neder, da UnB, entre muitos outros cientistas brasileiros e sul-americanos que têm o foco nos estudos e práticas CTS.

No Brasil, esse movimento se materializa com o processo que aconteceu nas universidades públicas, a partir de 2003, com a criação de mais de 80 Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP), com apoio do Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (PRONINC) do Governo Federal. As ITCPs propõem um novo marco de desenvolver CT, por meio da interação e aprendizagem comuns com os agentes sociais, com a troca de saberes entre a academia e os conhecimentos tácitos e saberes populares e comunitários.

Resultados do Movimento CTS: ITCPs e Movimentos sociais

Os textos a seguir buscam retratar uma dinâmica que se intensifica a partir dos anos 2000, com forte protagonismo dos Movimentos Sociais, em interação com as universidades públicas, por meio das ITCPs, com empresas, principalmente as públicas, e com os governos federal e diversos governos estaduais e municipais, com o propósito de promover a inclusão social e produtiva, bem como para a valorização de saberes locais e tradicionais, junto com milhares de brasileiros que transformam a realidade de seus territórios, por meio da economia solidária  e das tecnologias sociais (Mello, 2018).

Diversas iniciativas fortaleceram o movimento CTS, nos anos 2000, a exemplo do Banco de Tecnologias Sociais (BTS), da Fundação Banco do Brasil, o que pode ser visto no portal https://transforma.fbb.org.br/, bem como a criação da Rede de Tecnologias Sociais (RTS), com o envolvimento de empresas públicas federais, centros e institutos de pesquisa e organizações não governamentais (Garcia, 2014).

O governo federal, em 2003, criou a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), que teve um papel determinante e que viabilizou investimentos para o financiamento de inúmeros empreendimentos económicos e solidários (Singer, 2002). Diversas outras políticas públicas estimularam e potencializaram essas iniciativas, a exemplo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que abriu editais específicos para as iniciativas de pesquisa e extensão das ITCPs, em articulação com os movimentos sociais e populares. Como resultado científico desse processo, será apresentado um gráfico sobre a produção acadêmica, por meio de artigos referenciados pela plataforma Scientific Electronic Library Online (SciELO).

Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA/Brasil)

Programa 1 milhão de cisternas (P1MC)

Água e produção de alimentos

Historicamente, o semiárido brasileiro foi marcado pelo abandono do Estado, sem políticas públicas dirigidas aos mais pobres, o que gerava fome e sede. Para a falta de água, uma solução batente simples foi desenvolvida pela comunidade e suas organizações locais, buscando solucionar o prolema da falta de água para o consumo humano e para a produção de alimentos. O histórico completo sobre essa Tecnologia Social das Cisternas de Placas e posteriores desdobramentos do Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC) podem ser acompanhados através do portal da organização social Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA/Brasil): https://asabrasil.org.br/projeto/p1mc/.

Fotografia 1: Cisterna de placas do P1MC

Programa um milhão de cisternas sofre com cortes do governo federal |  Brasil de Fato

 

A ASA reúne mais de 3000 movimentos sociais, sindicatos, ONGs, associações, coletivos locais e regionais. A organização surge em 1999 com o intuito de fortalecer a reivindicação por soluções definitivas às dificuldades de abastecimento e acesso à água.

Desde 2003 o Programa Cisternas é estabelecido como política pública, com o objetivo de promover o acesso à água para consumo humano e produção de alimentos, com a implementação de tecnologias sociais simples e de baixo custo, de acordo com o regulamento da Lei nº 12.873 de 2013.

Quadro 6: Produção científica sobre o tema água e semiárido

Sobre as palavras-chave “água” e “semiárido”, foi possível a geração do gráfico apresentado no quadro 6, por meio de dados do portal SciELO, A produção científica gerou 562 artigos científicos, entre os anos de 1996 e 2026, com ascensão do tema a partir do ano 2010.

Associação Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (Ancat)

Trabalho e renda e cuidado ambiental

Os trabalhadores organizados como catadores de matérias recicláveis cumprem uma função impotente como agentes ambientais, principalmente nos grandes centros urbanos, promovendo a coleta seletiva e gerando trabalho e renda para milhares de famílias que dependem desse primeiro elo da cadeia de produção e transformação de resíduos sólidos.

Fotografia 2: Movimento dos Catadores de Materiais Recicláveis

 

O histórico de organização dos trabalhadores catadores pode ser acompanhado pelo portal da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat) https://ancat.org.br/. Atualmente, a Ancat conta com 512 cooperativas em rede de agentes ambientais, em todo o país, com quase 100 mil catadores e catadoras de matérias recicláveis organizados.

Uma das conquistas mais importantes desse movimento  ocial foi estabelecer a dispensa de licitação para a contratação de organizações de catadores e catadoras, conforme apontado no artigo 75, inciso IV, alínea J, da Lei nº 14.133/2021, que autoriza a dispensa de licitação ao setor público para a contratação de associações ou cooperativas para a coleta seletiva de resíduos sólidos.

Quadro 7: Produção científica sobre o tema catadores e resíduos sólidos

A produção científica sobre o tema pode ser observada no quadro 7. Foram utilizadas as palavras-chave “catadores” e “resíduo”, o que resultou em 89 artigos publicados entre os anos de 2005 e 2025.

Movimentos Sociais Rurais da Agricultura Familiar

Trabalho e renda e produção de alimentos

Segundo o Censo Agropecuário 2017 do IBGE, a agricultura familiar brasileira abrange 3.897.408 estabelecimentos rurais. São 77% dos estabelecimentos agrícolas do país, ocupando mais de 10 milhões de pessoas, responsáveis por parcela expressiva da oferta dos alimentos básicos da mesa dos brasileiros. Os agricultores familiares respondem por 11% da produção de arroz, 42% do feijão preto, 70% da mandioca, 71% do pimentão e 45% do tomate. Na pecuária, produzem 64% do leite de vaca do país e concentram 31% do rebanho bovino nacional, 51% dos suínos e 46% das galinhas[8].

Fotografia 3: Movimentos Sociais Rurais da Agricultora Familiar

Os movimentos sociais rurais da agricultura familiar, a exemplo de organizações nacionais como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) entre outras, promovem a mobilização e o engajamento de agricultores e agricultoras para a conquista de direitos e de políticas públicas favoráveis às famílias do campo e de assentadas da reforma agrária. Com essas lutas, o Estado brasileiro tem ampliado o financiamento para esse segmento social por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Para o período de 2025/2026, serão investidos R$ 89 bilhões para a produção da agricultura familiar.

Além do Pronaf, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que alimenta diariamente quase 40 milhões de estudantes de escolas públicas, adquire alimentos da agricultura familiar, em pelo menos 45% de todas as compras públicas. Da mesma forma, o Programa de Aquisição de Alimentos, que distribui alimentos para estabelecimentos públicos e comunitários, como hospitais, creches entre outros, adquire todos os produtos alimentares diretamente de agricultores familiares.

 

Quadro 8: Produção científica sobre o tema agricultura familiar

A produção científica sobre o tema, apenas sobre a coleção de textos do Brasil, pode ser observada no quadro 8. Foram utilizadas as palavras-chave “agricultura” e “familiar”, o que resultou em 702 artigos publicados entre os anos de 1981 e 2026, com destaque para o aumento de publicações a partir dos anos 2006.

Rede Cerrado

Preservação do conhecimento e dos povos tracionais

O Cerrado brasileiro é o berço das águas de diversos rios vitais para milhões de brasileiros, como o São Francisco, Paraná, Tocantins entre muitos outros. No entanto, esse bioma estratégico corre o risco de exaustão pelo uso indevido e criminoso do agronegócio. Além da diversidade ambiental, o Cerrado é base de vida e cultura de milhares de povos quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais agrícolas que carregam conhecimentos e saberes ancestrais, que também correm o risco de extinção.

Fotografia 4: Preservação das culturas e dos saberes tradicionais

Somos a sociobiodiversidade do Cerrado', afirmam mulheres em Encontro  Nacional realizado no Norte de Minas | Brasil de Fato

Criada em 1992, a Rede Cerrado,  https://redecerrado.org.br/, tem como principal objetivo organizar a luta contínua pela conservação do bioma e a defesa de seus povos e comunidades tradicionais, com a missão de promover a justiça social e a sustentabilidade ambiental. Atualmente, a Rede conta com mais de 300 organizações de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, além de organizações socioambientalistas e instituições acadêmicas.

Um dos principais projetos que a Rede Cerrado implementa é o projeto “Redes para a Conservação: combate ao desmatamento por meio de redes locais”, em conjunto com a Cáritas Alemanha, e cooperação com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA/Brasil), a Rede Ecovida e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) do governo brasileiro.

Quadro 9: Produção científica sobre o tema cerrado e preservação

 

A produção científica sobre o tema pode ser observada no quadro 9. Foram utilizadas as palavras-chave “cerrado” e “preservação”, o que resultou em 97 artigos publicados entre os anos de 1999 e 2026.

Outro mundo é possível, outro Brasil é possível

O Fórum Social Mundial e suas diversas edições foram e são ainda esforços de movimentos sociais internacionais, organizações não governamentais, acadêmicos e coletivos diversos que buscam alternativas ao modelo neoliberal e ao poder destrutivo do capital (Santos, 2004). Nasceu e se ampliou nos anos 2000, como uma alternativa direta ao Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça. As dinâmicas e a correlação de forças dos movimentos mudam, às vezes estão mais fortes, outras mais fracas. Assim é o movimento constante da luta de classes. As sementes de um outro mundo estão plantadas, o que estimula as lutas vindouras.

Fotografia 4: Mobilização do Fórum Social Mundial

Fórum Social Mundial persiste: Outro mundo é possível! (IPS, de Katmandu) -  Forum 21

No Brasil, o caminho percorrido pelos diferentes movimentos sociais e pelo movimento CTS, conforme os exemplos citados acima, permitiu a conquista de direitos, acessos, dignidade e justiça antes negados. A luta desses brasileiros que antes viviam marginalizados e invisibilizados, com o apoio de pesquisadores e cientistas sociais, segue não só para gerar trabalho e renda, gera riquezas e preserva as culturas, o ambiente e os saberes populares, mas também segue consciente do desafio de promover um desenvolvimento mais sustentável, para a construção de um país justo, solidário e soberano.

Referências:

Dagnino, R. (2014). Tecnologia Social contribuições conceituais e metodológicas. Insular/Eduepb.

Dowbor, L. (2017). a Era Do Capital Improdutivo. Outras Palavras/Autonomia Literária.

Garcia, S. G. (2014). A tecnologia social como alternativa para a reorientação da economia. Estudos Avancados, 28(82), 251–275. https://doi.org/10.1590/S0103-40142014000300015

Mello, C. J. (2018). Trabalho, tecnologia e solidariedade. Insular.

Neder, R. T. (2024). Politica cientifica e tecnologica para experiêecias contra-hegemônicas na universidade: uma perspectiva cts ciência, tecnologia, sociedade. Lutas Anticapital/Eduepb.

Neder, R. T., & Moraes, R. de A. (2017). Para onde vai a política de ciência & tecnologia no Brasil. Navegando Publicações.

Parreiras, L. E. (2007). Negócios Solidários em Cadeias Produtivas: Protagonismo Coletivo e Desenvovlimento Sustentável. IPEA/Anpec/FBB.

Santos, B. de S. (2004). O Fórum Social Mundial: Manual de Uso. CES/UC.

Singer, P. (2002). Introdução à economia solidária. Editora Fundação Perseu Abramo.



[1] O presente texto é o conteúdo base da apresentação realizada pelo autor na International School of Methods (ISM), em 26/07/2026, promovido pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em Brasília (DF).

[6] Fonte: https://www.oxfam.org.br/desigualdade-s-a/. Acesso em: 20/07/2026.


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